Detritus Toxicus

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Fumar mata

"Sabe que por cada cigarro que fuma perde 11 minutos de vida?"

Sandeep Gupta foi um dos especialistas envolvidos no estudo
internacional que demonstrou que é possível fazer regredir
a aterosclerose com fármacos. No entanto, na conversa com o PÚBLICO faz
questão de remeter esse assunto
para segundo plano e prefere falar sobre prevenção. Por Andrea Cunha
Freitas (texto) e Nélson Garrido (foto)

"Quer mesmo falar sobre o estudo? Preferia falar sobre prevenção. Isso é
que é importante para as pessoas. Quero falar na alimentação, no
exercício físico. No que podemos fazer para evitar doenças cardíacas."
Sandeep Gupta, indiano instalado em Londres, fala com o coração sobre o
assustador modo de vida actual que transformou a obesidade numa epidemia
e colocou as doenças cardíacas no top das causas de morte. A doença
cardíaca coronária mata mais de sete milhões de pessoas por ano. O
cardiologista teme pelo fosso entre pobres e ricos e apela à
responsabilidade de cada um na prevenção da doença. Tão importante como
reverter a aterosclerose, diz, é inverter comportamentos de risco.
PÚBLICO - Com os novos tratamentos da aterosclerose que abrem a
possibilidade de regressão da doença (ver caixa) não se corre o risco de
vermos as pessoas a comer e beber à vontade, porque sabem que terão a
droga para corrigir os males desse comportamento?
SANDEEP GUPTA - Isso é uma interessante psicologia. É a história da
polipill mágica [a proposta de criar um comprimido que junte seis
medicamentos: estatina, aspirina, três drogas para a tensão arterial e
vitaminas]. Há investigadores que defendem que se dermos este comprimido
a todas as pessoas com mais de 55 anos com factores de risco será
possível eliminar cerca de 80 por cento dos ataques cardíacos e
enfartes. Perante isto, pode-se argumentar que mais vale aproveitar o
hambúrguer, os cigarros, etc...
Mas não funciona assim. Quem tem doenças de coração tem de assumir
responsabilidades. Fazer mais exercício, pensar sobre os cigarros e as
refeições gordas. E não temos de esperar que as pessoas se tornem
doentes. Por que não procuramos o pré-paciente?
Ou seja, a pessoa que reúne alguns factores de risco?
Sim. Não é possível controlar a história familiar. Portanto, temos de
nos concentrar no que podemos controlar. Pode parar de fumar. Sabe que
por cada cigarro que fuma perde 11 minutos de vida? Em média, a
esperança de vida de um fumador é de menos dez anos do que um não
fumador. Se parar de fumar, em 12 meses o risco já caiu em 50 por cento.
Acha que os cigarros são o principal inimigo?
Não. Nenhum risco é mais importante. Oitenta por cento dos ataques de
coração são explicados por quatro factores de risco: fumar, tensão
arterial alta, diabetes e colesterol.
No caso do colesterol, a dieta tem um papel importante. É preciso
insistir aí?
As pessoas são muito indulgentes. Temos de começar a comer as coisas
certas na quantidade certa. O mundo, com seis mil milhões de pessoas,
está dividido em dois. Metade está a passar fome e a outra tem excesso
de peso. E, dos dois lados, morre-se cedo. E temos de falar de exercício.
Também é preciso fazer exercício para garantir um estilo de vida
saudável e prevenir a aterosclerose
Os mais novos devem fazer mais exercício. Para os mais velhos, na meia
idade, que acham que têm vidas ocupadas e filhos, preocupem-se só com a
actividade física. Subir as escadas até casa em vez de entrar no
elevador, por exemplo. As pessoas devem fazer 30 minutos de exercício
aeróbico: ligeiramente a suar, ligeiramente ofegante e ligeiramente a
acelerar a batida cardíaca. Se conseguirem três lotes de dez minutos tem
o mesmo benefício.
Apesar da prevenção, não baixou a mortalidade das doenças cardíacas. O
que podemos fazer?
Temos de manter a pressão. As sociedades de aterosclerose, cardiologia,
os media, os campeões de futebol, as estrelas da música. Todos temos de
participar. Temos de ir ao recreio da escola, dizer às empresas para
reduzirem o sal da comida de bebés... Não podemos esperar pelos 40 anos
para mudar os hábitos. Isto merece o envolvimento do governo, da
indústria alimentar e da comunidade médica. De todos.
Acha que a polipill também será importante?
Se calhar, vamos precisar é de uma "mini-polipill", com três
igredientes: aspirina, um medicamento para baixar a tensão e estatina.
Sem as vitaminas?
Não há provas de que funcionem para o coração. E há ainda outro
conceito: o British Medical Journal publicou um artigo em que se
propunha uma ementa semanal que incluísse vinho tinto, amêndoas ou
nozes, alho, peixe gordo, vegetais verdes e chocolate preto. Seis
ingredientes na proporção certa, estatisticamente terão o mesmo
beneficio no coração que a pollipill. Chama-se a polimeal.

http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?a=2007&m=02&d=01&uid=&id=119261&sid=13222

"Nas doenças coronárias não curamos ninguém"
A aterosclerose é uma doença que muitos temos, mesmo sem saber: não é
mais do que a acumulação de gordura nas paredes das artérias, que causa
o seu estreitamento e endurecimento. Este entupimento está na origem de
um leque variado de problemas, desde os ataques de coração aos acidentes
vasculares cerebrais. Reverter os danos causados pela acumulação de
gorduras nas artérias seria um passo importante para a saúde humana e um
estudo terminado no ano passado, em que participou Sandeep Gupta,
mostrou que isso pode vir a ser possível.
Como é possível fazer regredir a aterosclerose?
Este estudo levou o conceito de aterosclerose e do seu tratamento para
uma nova etapa. Mostrou-se, pela primeira vez, que as estatinas [um
agente usado para controlar o colesterol] podem não só abrandar a
progressão de aterosclerose, mas também revertê-la. Até este estudo
apenas se tinha demonstrado um abrandamento, não um encolhimento.
E isso verificou-se em todos os doentes?
A grande maioria dos doentes (foram observados cerca de 500) - julgo que
entre 70 a 80 por cento - apresentavam provas de regressão. O que
procuramos na ciência é relevância estatística. E, neste caso, era
estatisticamente relevante.
Mas salvaram-se vidas?
O estudo não foi suficientemente abrangente para o saber. O que sabemos,
para já, é que as análises de sangue ficaram melhores, as placas
encolheram.
Houve efeitos secundários provocados pelas altas dosagens usadas?
De facto, a estatina usada é a mais forte e foram administradas doses
muito elevadas, de 40 miligramas. Em Portugal e no Reino Unido usamos
dez ou 20 miligramas. No início houve preocupações, com o fígado, os
rins, os músculos. Mas foi muito seguro. Não nos podemos esquecer que
estamos a falar de doentes de coração. É miserável ver nas consultas as
mesmas pessoas a voltar. Esta semana fiz dez angiogramas, três deles a
pessoas que já tinham feito um bypass. Se houver tratamentos que
preveniram as doenças, os benefícios ultrapassam claramente os riscos.
Nas doenças coronárias não curamos ninguém, os tratamentos são para toda
a vida. A.C.F.

http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?id=119262&sid=13222


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domingo, janeiro 28, 2007

Vale a pena pensar nisto

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou ontem "as forças pró-não" no referendo do aborto de demagogia ao defenderem maior apoio à família, já que estiveram silenciosas quando a reforma do Código do Trabalho reduziu a licença de maternidade.

"Onde estavam quando a reforma do Código do Trabalho promovida por Bagão Félix, ele próprio defensor do Não, veio reduzir a licença de maternidade e o carácter universal do abono? Não se ouviram os seus protestos", disse Jerónimo de Sousa.

Falando em Aveiro num jantar do PCP para defender o "Sim" no referendo sobre o aborto, o secretário-geral daquele partido justificou que o PCP, embora considere que a Assembleia da República é o órgão de soberania que tem legitimidade para alterar a lei penal, "não podia ficar de fora de uma batalha que foi sempre sua".

O líder do PCP salientou que Portugal é "dos pouquíssimos países europeus" que mantém a penalização do aborto, ignorando recomendações de organizações internacionais.

Acusou, por isso, os partidários do "Não" de "fazerem da União Europeia o seu modelo quando estão em causa os seus interesses, de serem do pelotão da frente quando se refere aos seus negócios, mas estarem no carro-vassoura no que respeita aos direitos das mulheres e dos trabalhadores".

"É mentira que o 'Sim' no referendo signifique o aborto livre, ou o aborto a pedido e sem motivo. O que está em causa não é se somos a favor ou contra o aborto, é se se mantém a possibilidade da pena de prisão até três anos para as mulheres, a devassa da sua vida íntima, as investigações e os julgamentos", argumentou.


http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1283772&idCanal=27

Comentários de leitores:

É lamentável que quem se oponha ao aborto também se oponha ao eumento dos direitos sociais de queme scolhe ter ul filho. Invariavelmente, e nem é preciso esconder, que os movimentos alegadamente pró-vida estão ligados aos sectores mais conservadores da sociedade protuguesa, mas também aqueles tradicionalmente mais ligados à direita, ao grande capital, à Igreja mais vetusta. Mas depois são também os mesmos que, quando integram listas partidárias, mais retiram direitos aos cidadãos, menos regalias sociais, menos apoio às famílias - o expoente máximo desta estirpe é o ex-ministro Bagão Félix. A isto só se pode dar um nome: falso moralismo, porque obrigam os seus concidadãos a ter filhos, mesmo que não tenhma condições económicas para os criar; reduzem os apoios sociais; reduzem a duração da licença de meternidade. Alías, acrescento aqui uma coisa: é graças a este neo-liberalismo serôdio, hipócrita, de sacristia que a taxa de natalidade vai diminuindo - quem se aventura e ter filhos se os seus patrões, que dizem orgulhosamente "não ao aborto", os podem despedir no dia seguinte?


sexta-feira, janeiro 19, 2007

Anti-Ciência


2007-01-12 /Por Carlos Corrêa */

Ultimamente têm sido feitos alguns esforços no sentido de educar os
jovens para a cidadania, aumentando a sua cultura científica para serem
capazes de compreender o mundo que os rodeia e criticarem
conscientemente os eventuais desmandos contra o meio ambiente, de que
todos temos um pouco de culpa. Apesar destes esforços, de que saliento a
actuação do programa Ciência Viva, muitas pessoas com responsabilidades
fecham os olhos a certas manifestações anti-Ciência que vão minando a
inteligência e a cultura das pessoas menos preparadas, que infelizmente
constituem a maioria dos telespectadores.

/
/

Os média têm grandes responsabilidades na proliferação da superstição e
crendice, dando grande cobertura a reuniões de bruxos, astrólogos,
professores, videntes e muitos outros figurões que se servem da
liberdade em que vivemos para encher de anúncios as páginas de certos
jornais, para poluir certos programas televisivos (já de si poluentes…)
fazendo publicidade enganosa das suas anunciadas capacidades de previsão
e cura de todos males, do corpo e do espírito.

Mais grave ainda é que a RTP, que deveria prestar um serviço
verdadeiramente público aos cidadãos, colabore também na difusão da
bruxaria, tendo igualmente a sua astróloga de serviço permanente no
programa Praça da Alegria, munindo-se de um computador para tentar dar
um ar científico às suas "previsões", contribuindo assim para a
estupidificação dos cidadãos. A falta de cultura científica e ignorância
primária das pessoas (habituadas a carregar num botão da TV para terem o
mundo inteiro à sua frente) leva-as a pensar que é possível, por meio de
um qualquer programa metido num computador, fazer previsões sobre a sua
vida, a sua saúde e os seus negócios.

A RTP colabora nesta farsa todos os dias, levando a bruxaria às pessoas
que seguem o programa, dando-lhe a mesma credibilidade que dão a médicos
e cientistas que por lá passam. Já protestei junto dos responsáveis do
programa, mas nem se dignaram acusar a recepção da minha carta. Agora,
que se instituiu um Provedor do Telespectador, cheio de boas intenções,
já lhe comuniquei o escândalo e pedi que estas anomalias fossem
rapidamente eliminadas, para bem dos cidadãos. Não poderemos nós,
cientistas, fazer algo mais?

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=17344&op=all

/* Prof. Cat. Jubilado da UP/



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domingo, janeiro 14, 2007

Imperdível

Este blog.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Um filósofo na administração

Há boas notícias, vindas do outro lado do Atlântico, para quem consagrou os seus anos universitários ao estudo e aprofundamento de disciplinas hoje consideradas como de "difícil saída profissional".

Trata-se, concretamente, do caso de algumas empresas norte-americanas, que decidiram recrutar, para os seus conselhos de administração, quadros com formação superior em Filosofia. E admitem também alargar o processo com o recurso a historiadores ou sociólogos.

A explicação tem a ver com o facto de, mergulhados em cash flow, EBITDA, tableau de bord, downsizing e outros indicadores ou acções similares, os gestores perderem, com frequência, o contacto com o mundo real, com as necessidades das pessoas, perderem mesmo, em algumas circunstâncias, a capacidade de arquitectarem uma visão e um pensamento global sobre o meio em que se movem.

A combinação de saberes diferenciados, a nível da decisão de topo, terá, segundo os precursores da iniciativa, vantagens em matéria de análise crítica, de conhecimento dos mercados e de programação a prazo.

Os cépticos do costume poderão reagir com um simples encolher de ombros e profetizar que tudo isto não passa de uma "americanada", a ser em breve esquecida e substituída por outra novidade, produto do delírio criativo de um qualquer "iluminado". E é verdade que haverá, no mínimo, que esperar para ver se os resultados da gestão empresarial retirarão benefícios reais deste recrutamento invulgar.

A História está repleta de considerações díspares acerca da disciplina do pensamento, desde, por exemplo, São Paulo, na Epístola aos Colossenses ("Cuidado, não vos apanhem com a filosofia, essa quimérica negaça"), ou Shakespeare, pela voz de Hamlet ("Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que a vossa filosofia pode supor"), até Descartes ("Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir") ou Nietzsche ("O esforço dos filósofos tende a compreender o que os contemporâneos se contentam em viver.") De qualquer forma, quem teve o privilégio de se encontrar com a Filosofia através da mediação de um professor inspirado sabe bem o que ganhou em "sabedoria" e "compreensão".

Impressiona, portanto, a decisão do Ministério da Educação de acabar com o exame nacional na disciplina, obrigando as universidades com licenciaturas em Filosofia à decisão surrealista de seleccionar outra matéria para a prova específica de acesso ao curso.

A liberalização do ensino superior ocorrida nas últimas décadas, no que respeita à oferta e ao acesso, não originou, como se sabe, um aumento da qualidade média do ensino prestado ou da formação dos jovens licenciados. As razões são conhecidas, estão suficientemente dissecadas e não cabem no âmbito deste artigo. E também se conhece o drama da legião de desempregados - ou "mal empregados"... - que convivem com a amargura do sentimento de inutilidade dos anos de estudo específico.

Não se percebe é como a desvalorização da Filosofia poderá contribuir para corrigir estes desequilíbrios. Ignorantes sobre a História da "sabedoria", mais mal treinados para pensar e para compreender um mundo com contornos cada vez mais complexos, os jovens do futuro estarão, obviamente, bem mais desarmados perante a vida.

Mário Bettencourt Resendes
Jornalista

O Ministério pimba da Educação

O Ministério pimba da Educação

Público, 4 de Janeiro de 2007

Desidério Murcho

A propósito do livro Desastre no Ensino da Matemática: Recuperar o Tempo Perdido, organizado por Nuno Crato, Edições Gradiva, 2006

Os Encontros de Caparide foram uma louvável iniciativa do Ministério da Educação, que pretendia ouvir as sociedades científicas sobre o ensino de algumas disciplinas fundamentais (Português, Matemática, Filosofia) cujas deficiências a nível de currículos são gritantes. Foram tempos áureos, em que um ministro da Educação, David Justino, se preocupava com questões relacionadas com o ensino e não apenas com questões laborais e meramente organizacionais. O cerne da excelência do ensino é a solidez científica dos currículos e a formação científica dos professores, mas as discussões públicas nacionais sobre educação nunca abordam estes aspectos centrais. Até parece que tudo o resto é que é a finalidade do ensino, quando na verdade são apenas meios.
Para a Renovação do Ensino da Filosofia

Dos Encontros de Caparide resultaram dois livros. O primeiro, dedicado à Filosofia (Para a Renovação do Ensino da Filosofia, Plátano), foi publicado no início deste ano. E este volume, dedicado à Matemática, surgiu agora. No primeiro caso, trata-se de discutir uma proposta concreta que visa melhorar a qualidade científica e didáctica dos programas de Filosofia do ensino secundário. No segundo, trata-se de discutir questões pedagógicas gerais que afectam não apenas a disciplina de Matemática, mas todas as outras.

As desastrosas doutrinas pedagógicas que imperam em Portugal, algo pós-modernaças e "construtivistas", são elitistas — apesar de fingirem o contrário — e têm por denominador comum um ódio visceral às ciências, à matemática, à história, à gramática, à literatura, à filosofia; enfim, a tudo o que se pareça com verdadeiros conteúdos escolares. Em vez de conteúdos, fala-se de competências — como se pudesse haver competências sem conteúdos. E em vez de se distinguir cuidadosamente o que são verdadeiros conteúdos escolares do resto, procura-se transformar a escola numa espécie de entretenimento com ademanes de educação para a cidadania — tudo, menos ensinar seriamente matemática ou geografia ou filosofia ou história ou música. A origem destas ideias remonta a Rousseau e à fantasia do bom selvagem, e o que se visa é acabar com as ciências, as artes e as letras, pois tudo isso corrompe a criança, que é presumivelmente mais feliz a ver televisão e a jogar à bola. Claro que tudo isto é fantasioso porque para andar a entreter os meninos com conversa fiada não é preciso escola: as crianças divertem-se muito mais fora da escola, e no mundo de hoje não têm sequer tempo para se aborrecer.

Fantasioso é também querer certificar manuais escolares quando os programas das disciplinas, que foram certamente certificados pelo próprio ministério, são o locus classicus do erro científico e do disparate pedagógico. Em muitos casos, para que um manual seja cientificamente bom e pedagogicamente adequado, é obrigado a não respeitar o programa. Isto porque os programas se degradaram de tal maneira ao longo dos anos que, hoje em dia, ao ler um programa curricular de Filosofia ou Português ou outra disciplina, uma pessoa pergunta-se onde está a filosofia ou o português. Os pedagogos ministeriais impuseram ao país a original perspectiva de que se pode ensinar Português sem português, Filosofia sem filosofia e Matemática sem matemática. Ao mesmo tempo que os estudantes são massacrados com inúmeras disciplinas vácuas sem qualquer centralidade escolar, não têm uma educação básica em música, nem em literatura ou filosofia ou geografia. Se um estudante de 15 anos quer saber alguma coisa sobre estas coisas, tem de o fazer fora da escola. Mas se quiser brincar aos índios, pode fazê-lo nas chamadas "actividades educativas", em substituição das aulas de Matemática. É esta a educação pimba que temos.

Mas não é esta a educação que a sociedade, no seu todo, quer. Os pais, com maior ou menor formação escolar, queixam-se de que a escola não ensina. Os miúdos cantam, com razão, que "na escola nada se cria, nada se transforma, tudo se perde". Os professores andam há anos a denunciar este estado de coisas. Mas os pedagogos ministeriais vão passando de governo para governo, conseguindo ora mudar a gramática toda, prejudicando gravemente a possibilidade da excelência do ensino do Português (se antes poucos professores sabiam e ensinavam gramática, agora ainda menos — ou será que a ideia é mesmo essa?), ora suspender documentos que introduzem conteúdos científicos sérios num programa que carece deles (como foi o caso da badalada suspensão das Orientações de Leccionação do Programa de Filosofia). A ideia de trabalhar pelo bem do país, pela excelência do ensino, em defesa do interesse público, é alheia a estes originais pedagogos.

Numa cultura como a portuguesa, na qual nunca se valorizou realmente o conhecimento — afinal, no tempo da outra senhora, o conhecimento era um ornamento social para exibir em conversas amenas enquanto se tomava chá —, compete à escola entusiasmar os jovens e a sociedade, dando-lhes uma percepção clara do valor intrínseco do conhecimento. Mas quando é o próprio Ministério da Educação que não acredita no valor intrínseco do conhecimento, dificultando cada vez mais o estudo aos muitos professores sérios que temos por esse país fora, afogando-os em trabalho burocrático e em horas contabilizadas nas escolas só para marcar ponto, que se pode esperar do nosso futuro? Como poderemos recuperar o tempo perdido, tanto no que respeita ao ensino da Matemática como no que respeita às outras disciplinas? Seja qual for a estratégia, o primeiro axioma tem de ser este: o conhecimento tem valor intrínseco, em si e por si, e é do maior interesse público protegê-lo e transmiti-lo, e ensinar a produzi-lo — e só a escola pode fazer isso, ainda que infelizmente o tenha de fazer contra o Ministério pimba da Educação.

Ainda vale a pena ser professor?

Com uma classe docente desvalorizada e maltratada, longe vão os tempos em que os professores "brilhavam" e em que a escola era considerada uma "fonte sagrada".
A escola é fonte sagrada
De sacrossanta bebida
Bebei todos desta fonte
Na primavera da vida
Nas Horas Vagas, Joaquim Moreira da Silva

Assim valorizava a escola e a profissão docente o poeta popular Joaquim Moreira da Silva, nascido em 1886 e falecido em 1960. Não tendo podido ir à escola em criança, por precisar de trabalhar desde pequeno, frequentou um curso nocturno aos 18 anos, após o que leu avidamente e adquiriu uma vasta e diversificada cultura. A leitura merecia-lhe uma grande admiração e proclamava que:

As letras do alfabeto
Sabendo nós compreendê-las
Dão-nos luz, muito mais luz
Do que todas as estrelas.
Nas Horas Vagas

Sobre os professores, que distinguia como profissionais de grande importância, afirmava que eles "Brilham à luz da razão".

Longe parece terem ficado os tempos em que aos professores era reconhecido grande mérito social. A desvalorização social da profissão docente tem vindo a agravar-se e o ano que recentemente terminou marcou fortemente a degradação da sua imagem.

Preguiça, incompetência, oportunismo, falta de profissionalismo, fuga ao trabalho são algumas das características que as mensagens provenientes do Ministério da Educação foram deixando passar para a opinião pública. Das várias ideias que foram lançadas ou reforçadas, retomarei duas: os professores trabalham poucas horas, os professores são os responsáveis pelo abandono escolar dos alunos. Deixarei de parte, por agora, a ideia gravíssima e incorrecta de que os professores são os únicos responsáveis pelo insucesso escolar.

Omitindo que os professores precisam de preparar as suas aulas, de estudar continuamente para aprofundar os seus conhecimentos da matéria que ensinam e de outras áreas fundamentais ao exercício da sua profissão, de corrigir trabalhos e de realizar um sem-número de outras tarefas fora das aulas, o Ministério da Educação foi reforçando a ideia, previamente existente na opinião pública, de que os professores trabalham pouco, limitando-se a "dar umas horitas" de aulas. Assim surgiram as aulas de substituição, bem mais desgastantes do que uma normal, no tempo de redução da componente lectiva que, devido à idade, ia sendo atribuída por reconhecimento do desgaste que a profissão acarreta. Assim se vão já levantando vozes sobre a ocupação dos professores nas interrupções lectivas do Natal, do Carnaval e da Páscoa (como se não estivessem sobejamente ocupados na preparação e realização de reuniões de avaliação e na preparação do período escolar seguinte).

Quanto às aulas de substituição, elas padecem de uma indefinição terminológica. Quando se fala com pais e encarregados de educação, trata-se efectivamente de aulas, para que saibam que os seus filhos estão ocupados com aulas sempre que estão na escola. Quando se fala com professores, não existem aulas de substituição que, por artes mágicas, se transformam em actividades de substituição, para poderem fazer parte da componente não lectiva. Não questiono as vantagens da ocupação plena dos alunos, mas tão-só a forma como ela se tem vindo a efectuar e a desvalorização da imagem dos professores - pouco trabalhadores - que ela traz implícita.

Quanto ao abandono escolar, a responsabilidade exclusiva dos professores neste grave problema é afirmada pelo Ministério da Educação ao apontá-lo como critério a ter em conta na avaliação dos docentes. A minha experiência mostra-me que o facto de o abandono escolar não ser maior deve-se à intervenção de professores e de outros profissionais, como, por exemplo, os psicólogos escolares, que ultrapassam as suas funções e desdobram-se em esforços para conseguirem levar muitos alunos à escola, realizando, por vezes, verdadeiros "milagres". Deparam-se esses profissionais com famílias completamente desestruturadas pela miséria, pelo desemprego, pela doença, pela prisão de pais e/ou irmãos, pela droga e por outros flagelos e lutam contra a falta de apoios institucionais e sociais. Noutros países, existem medidas de apoio às famílias e os pais são responsabilizados pela assiduidade dos filhos, sendo tomadas medidas para que exerçam as suas funções parentais. No nosso país, essa responsabilidade sobra para os professores.

Estes são alguns dos aspectos da desvalorização da profissão docente que marcou o ano de 2007. Outros, bem mais graves, caracterizam o estatuto da carreira docente que o Ministério da Educação aprovou solitariamente, contra todos os sindicatos e contra os milhares de professores que se manifestaram das mais diversas formas. O ano de 2007 começa de uma forma nada auspiciosa para a educação em Portugal. Com uma classe docente desvalorizada e maltratada, longe vão os tempos em que os professores "brilhavam" e em que a escola era considerada uma "fonte sagrada".

Ainda vale a pena ser professor? Mesmo para quem gosta muito da profissão (como é o meu caso), vai sendo cada vez mais difícil conseguir encontrar argumentos positivos para colocar no prato "sim" da balança em contraponto aos sucessivos e rudes golpes que a profissão tem vindo a sofrer e que a fazem inclinar para o prato do "não". Por mim, ainda consigo incliná-la para o "sim", mas... por quanto tempo?

Armanda Zenhas

terça-feira, janeiro 02, 2007

Maria

http://chiron-lyceum.blogspot.com/2006/12/maria-antonieta.html#links


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http://www.essayfinder.com/

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http://www.termpapers-on-file.com/

http://www.trabalhosprontos.com/

http://directorio.clix.pt/directorio.html?id=554

http://www.trabalhos-faculdade.concentos.pt/

http://pedroal.no.sapo.pt/

http://www.geocities.com/Athens/Oracle/1759/
(este é engraçado: anuncia "VIVA sua vida intensamente... um dia, você estará certo !"

http://www.coladaweb.com/ (brasileiros aflitos em busca de um trabalhito de filosofia para o vestibular. Qual é o poder de compra no Brasil? :)

http://www.zemoleza.com.br/ O elogio da preguiça...

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=854&id=23

http://www.anunciosgratis.pt/?view=showad&adid=734&cityid=-54&lang=pt

http://classificados.anunciweb.pt/detail.php?siteid=20782&PHPSESSID=040de4c447bd648...

http://www.aladiah-square.com/apresentacao.html





domingo, dezembro 17, 2006

Haverá música mais...?